quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Felicidade.... um escárnio

Hoje é o primeiro dia de uma nova fase, tanto deste blog como da minha vida.

No decorrer dos meus 38 anos tive vários inícios de fases. Entrei na escola primária, da qual me recordo com dificuldade, mudei para Indaiatuba e entre alegrias e tristezas vivi nesta cidade bons anos. Conheci amigos, trabalhei, estudei e cresci, não muito, mas o necessário para encontrar a mulher que dividiria comigo meus problemas e multiplicaria minhas alegrias. A partir de então minha vida começou um trajeto ascendente, próspero e feliz como até então não tinha vivido, e assim permaneci até o dia quinze de janeiro deste ano quando de repente tudo parou bruscamente por dolorosos quinze dias. Papai havia sido internado para um procedimento cirúrgico e não mais saiu do hospital neste período. Por fim, faleceu quinze dias depois aos sessenta e três anos de idade, deixando muitas lições, algumas que passei a valorizar um pouco mais após sua ida.

Curti meu luto, cuidei de alguns papéis, paguei umas contas e aprendi... Tive a honra de trazer a alguns queridos durante a cerimônia fúnebre algumas experiências deixadas à mim pelo meu pai. Expliquei como tinha me ensinado a valorizar pessoas e desvalorizar as coisas, e como devemos entregar nosso caminho ao Senhor e confiar nele, que o mais Ele fará (Salmo 37). Durante meus trinta e oito anos de convívio aprendi que as pessoas são interessantes e que vale a pena gastar um tempo para conhecê-las, as vezes neste processo somos surpreendidos negativamente, mas a paga relevante é aquela que nos é entregue quando conhecemos pessoas únicas e valiosas. Neste convívio com a multiforme realidade humana é que alcançamos o conhecimento, esta parecia ser a vida de meu pai... conhecer gente.

Nesta empreitada ele não apenas conhecia pessoas mas se relacionava com elas em um nível irritante para mim. Pois é, eu realmente me irritava quando ele brincava no pedágio pedindo desconto na tarifa, podia apenas pegar o troco e sair. Me irritava quando brincava nas aulas que ministrava no colégio, me irritava inúmeras vezes a forma como tratava temas críticos como desemprego, inimizades, religião, política. As vezes aspergia seriedade nesses temas, mas geralmente trazia uma leveza poética abordando de forma filosófica estas questões. 

Felizmente antes de sua partida, comecei a valorizar esta faceta de sua personalidade, passei mesmo a tentar copiá-lo em alguns aspectos. Não cheguei ao ápice de pechinchar no pedágio, ou fazer gracejos com a caixa do supermercado, mas atribuí certa leveza e irreverência a assuntos críticos, que levariam geralmente a acaloradas e coléricas discussões.

Em temas sobre nosso cristianismo ele contestava diversos pontos, as vezes os transformando em incômodas vírgulas ou reticências, mas era efetivamente um filho de Deus, temente ao Criador e seguidor do mestre Jesus, assim, tenho a certeza de que ele está hoje com o Pai Soberano, não por merecer, mas por ter reconhecido a misericórdia do Mestre e se reconhecido indigno de tudo o que recebera. Nisso eu o copiei integralmente. Por fim, estou feliz por mais um Cristão ter morrido, pois sabemos que a presença de Deus é uma enorme recompensa.

E chego ao ponto. Para alguns tenho certeza de que minha felicidade neste momento soa ofensiva, quase um escárnio. Tentei acomodar meu sentimento em expressões inofensivas como, "estou feliz e triste" ou  "é uma tristeza passageira", mas sucumbi a honestidade e criticidade herdada de papai, não posso usar palavras tão opostas como tristeza e felicidade numa frase de três palavras, me recuso, o que eu sinto o português é capaz de exprimir, é sim FELICIDADE! 

Sei distinguir as palavras e sentimentos, por isso digo que tenho saudades e também um sentimento de interrupção muito doloroso, mas isto não é o mesmo que tristeza, digo isto por experiência própria, estes sentimentos convivem hoje com minha felicidade e isto só é possível porque ela não está baseada em sistemas ou situações mas no único que é capaz de nos dar a paz que invariavelmente blinda nosso ser de alegria, Jesus Cristo. Julgo ser esta a maior herança deixada por meu pai.

Como ele também me ensinou, não sentirei vergonha desta felicidade, chorarei de saudades mas jamais me angustiarei de tristeza, pois certamente em uns bons 50 ou 60 anos nos reencontraremos e lembraremos de boas histórias, juntamente com meus avós, primos, tios e outros que morrerem reconhecendo em Jesus a misericórdia de Deus, que teve pena da nossa insignificância e pecado e morreu por nós.

Se ele pudesse nos ler agora eu diria "...até breve papai, você foi muito cedo na minha falha opinião...", mas esta frase é dispensável, pois ele não pode lê-la, nem me ouvir até aquele dia em que nos reencontraremos.

E à você leitor cristão deixo um conselho, quando estiver triste, angustiado e no vale da sombra da morte -parafraseando o Rei Davi- minha sugestão é: ponha o cérebro para funcionar, lembre-se do porquê você é feliz e largue mão de tristeza...

Pensa, que melhora!

Nas horas de tristeza, ouvir o coração é sempre um grande risco.

Abraços a todos


Protestos de março e o dilema do botão verde.

Temos aqui um tema que relutei em tratar, resolvi fazê-lo de forma simples como tem sido a rotina deste blog, mas farei com cautela para nã...

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